LUIZ CARLOS

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Noite de domingo. Estava regulando a câmera para devolvê-la ao topo do tripé, instalado em uma iluminada rua do Centro de São Paulo. Olho para trás e a menos de três metros de distância vejo aquele homem: roupas muito gastas - calça de oncinha, camisa de veludo, jaqueta encardida - dispostos em camadas, à la Falcão; olhos protegidos por um estranho óculos no estilo homem-mosca; um notável mau cheiro (por certo um morador de rua sem muitas oportunidades para o banho). Ele parecia em transe enquanto olhava para o próprio reflexo no vidro espelhado de um carro estacionado, transe este interrompido pelo meu chamado.

Vida & Imagens: Ei, vem cá.
[Ele levantou os óculos e lentamente se aproximou de mim. Parou na minha frente, o mau cheiro ainda mais forte; só então notei que seus óculos eram, na verdade, um pedaço de lanterna de carro.]

V&I: Posso fotografar você?
[O homem nada falou, mas autorizou a foto com um gesto de cabeça e postou-se à minha frente.]

V&I: Qual é o seu nome?
Ele: Luiz Carlos de Oliveira, aventurado na galática, fazendo o Sol de Terra.

V&I: Luiz Carlos, posso entrevistar você?
[Desta vez, o gesto foi de negação. Luiz Carlos virou-se e saiu andando devagar, até sumir em meio à multidão.]

Horas depois, ao transcrever as raras palavras de Luiz Carlos, a dúvida: “fazendo o Sol de Terra” comporta vários sentidos. Acabei concluindo que, na frase, “Terra” é o planeta, e não a matéria, o barro. Pura filosofia, ainda que vinda de alguém com evidente perturbação mental.

SUELLEM

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Conheci Suellem em fevereiro: fotografei-a enquanto desfilava seu corpo esguio por uma calçada do Centro de São Paulo. Há poucos dias reencontrei-a, desta vez para uma sessão de fotos no Pátio do Colégio e no Largo de São Bento. Apesar de nunca ter posado, mostrou uma aptidão inata para ficar em frente às lentes. Feitas as fotos, conversamos.

Qual é o seu nome?
Suellem.

V&I: Quantos anos você tem?
Suellem: Vinte e três.

V&I: Você é daqui de São Paulo?
Suellem: Sim, da Cidade Tiradentes.

V&I: Você trabalha, estuda?
Suellem: Eu já terminei os estudos. Tenho ensino médio completo e trabalho como operadora de telemarketing.

V&I: Trabalhar com telemarketing é difícil?
Suellem: É bom, dependendo do produto.

V&I: E com que produto você trabalha?
Suellem: Eu vendo cartões de crédito.

V&I: É difícil vender cartão de crédito?
Suellem: É difícil porque eu vendo pra quem já tem mais de quatro cartões. Como é esse é o perfil que eles colocaram para mim, isso dificulta as minhas vendas.

V&I: Quantas vendas você consegue num mês?
Suellem: Menos de trinta. Uma por dia, em média.

V&I: Com quantas pessoas você fala num dia?
Suellem: Trabalhando direto, mais de trezentas pessoas. Isso em seis horas.

V&I: As pessoas costumam ser educadas?
Suellem: Algumas pessoas são muito grossas, mas eu levo na esportiva. Não levo pro lado pessoal.

V&I: Mas não é todo mundo que consegue levar na esportiva, não é?
Suellem: Não. Tem gente que chora, fica com depressão… Acontece bastante.

V&I: Você tem uma meta pra atingir?
Suellem: Tenho. Dois cartões por dia.

V&I: Quantas pessoas trabalham com você?
Suellem: O call center é enorme, mais de trezentas pessoas. Na minha equipe são trinta e cinco pessoas. A minha firma presta serviço para várias outras.

V&I: Você já vendeu outros produtos?
Suellem: Cartão de crédito, bloqueador de celular e de linha…

V&I: Tem algum produto que seja melhor pra vender?
Suellem: Nenhum! [Começa a rir com gosto.]

V&I: Por quê?
Suellem: O que desanima nós, operadores, é que eles colocam clientes fora do perfil. Vamos supor, eu ligo pra você, mas você já é cliente de outro banco…

V&I: Nesse caso, vender o cartão é um desafio.
Suellem: Exatamente.

V&I: Já trabalhou com outra coisa que não telemarketing?
Suellem: Já trabalhei na casa de uma artista… Não posso revelar o nome. Eu fui contratada pra olhar o cachorrinho.

V&I: Por que você não pode falar quem era? Pediram pra você não comentar?
Suellem: Na época, sim. Medo de assalto. Conseguiram entrar até no apartamento da Fátima Bernardes, não é?

V&I: Com o que você gosta de trabalhar?
Suellem: O que eu gosto mesmo é de animais. Gostaria de trabalhar numa pet shop.

V&I: Você tem algum animal de estimação em casa?
Suellem: Não, minha mãe não deixa. A única coisa que ela deixa é peixe. Eu moro em apartamento.

V&I: Então você tem peixes de aquário.
Suellem: Tinha um… Ele morreu. Eu acho que ele bateu a cabeça numa pedra. [Começa a rir.] Ele morreu do nada!

V&I: Você tem namorado?
Suellem: Namorei por quase um ano. Terminei faz menos de um mês.

V&I: Pretende casar, ter filhos?
Suellem: Um dia, casar. Eu ainda sou muito nova. Quero ter dois filhos.

V&I: O que você espera do futuro?
Suellem: Eu quero pôr meu sonho em prática.

V&I: Qual é o seu sonho?
Suellem: Ser modelo. Mas não de sucesso.

V&I: Como assim? Quer ser modelo sem sucesso?
Suellem: Muita menina quer fazer muito sucesso, mas isso é uma ilusão. Eu só de desfilar numa passarela fico feliz, porque faço isso com amor.

V&I: Você já desfilou?
Suellem: Não. Eu já participei de um concurso, mas não ganhei.

V&I: Que concurso?
Suellem: “Bonequinha do Café”, no meu bairro. É que antigamente umas moças trabalhavam no cafezal e eram muito exploradas. Aí fizeram essa homenagem. Agora vai ter um outro concurso: Miss Tiradentes.

V&I: Você gosta da Cidade Tiradentes?
Suellem: Adoro. Lá é a maior cohab [conjunto habitacional] da América Latina. Melhorou muito: tem banco, comércio, vão construir um shopping.

V&I: Lá tem muitos lugares para sair?
Suellem: Lugar pra sair não tem. Bar, só aqueles barzinhos de forró.

V&I: Você não gosta de forró?
Suellem: Não, odeio. Eu gosto de dançar black, samba e só.

V&I: E que mais você gosta de fazer?
Suellem: Eu gosto bastante de ler. Estou lendo “Pé no chão, cabeça nas estrelas”, não lembro o autor. [Trata-se de Lair Ribeiro, um dos papas da auto-ajuda.]

V&I: Algum livro marcante?
Suellem: “Você é o melhor de Deus”. É um livro que incentiva as pessoas. [O autor é o pregador evangélico norte-americano T.L. Osborn.]

V&I: Gosta de cinema?
Suellem: Gosto. Um filme que me marcou foi “Amor e basquete”. [No original, Love and basketball, direção de Gina Prince-Bythewood, 2000.]

V&I: Mudando de assunto, o que você acha do Brasil?
Suellem: É um país riquíssimo, tem seus defeitos - corrupção, essas coisas - mas é um lugar ótimo pra se viver. É o único lugar que não tem furacão, essas coisas.

V&I: Mas você acha que o Brasil tem jeito?
Suellem: Tem jeito. O maior culpado é o governo: muito imposto. Mas eu tenho um raciocínio meio particular de que só você mesmo pra melhorar, entendeu? Depende de cada um. Vamos supor: lutar contra a matança de animais. Tem gente que é contra, outro são a favor. Para fazer roupa, essas coisas.

V&I: Você não usaria uma roupa feita com a pele de um animal?
Suellem: Não. Nem que me pagassem.

V&I: Então você não come carne.
Suellem: Como carne, sim.

V&I: Não é a mesma coisa? [Eu começo a rir, Suellem também.]
Suellem: É que é assim: na hora de comer você esquece, nem lembra que é um animal. Infelizmente eu como. Mas eu sou contra arrancar a pele de animal. Eu nem pensei nisso, mas eu como de tudo.

V&I: Aliás, qual sua altura e seu peso?
Suellem: Um metro e sessenta e oito, uns 48 quilos. Eu bem que queria ser maior, mas eu não engordo.

V&I: É bom ser magra para posar. E o que você espera das fotos de hoje, que você só vai ver daqui a uns quinze dias?
Suellem: Acho que vai ser ótimo para mim, pois eu sempre quis me ver numa foto profissional. Só não quero que fique muito artificial.

V&I: Você nunca tinha posado antes, mas estava muito à vontade.
Suellem: Ah, eu tenho vergonha. Sério.

V&I: Para encerrar, você quer fazer a sua propaganda como modelo?
Suellem: Querer eu quero, mas eu não sei como fazer isso!

Entregarei as fotos impressas para a Suellem ainda nesta semana. Disponibilizei fotos coloridas da moça em meu portfólio. Quem sabe algum visitante não termina por contratá-la?

CLEUZA

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Calçada da prefeitura, na cabeceira do Viaduto do Chá. Foi ela que passou e ficou me olhando. Melhor dizendo, ficou olhando para a minha câmera e logo pediu que eu a fotografasse. Fiz mais que isso: bati um papo com ela sobre vários assuntos, até mesmo sobre a visita do Bush ao Brasil.

Qual é o seu nome?
Cleuza.

V&I: Cleuza, o que você está fazendo aqui no Centro de São Paulo, no fim da tarde de domingo?
Cleuza: Eu estava trabalhando. Eu trabalho lá embaixo, ao lado do mercadão.

V&I: O que você faz?
Cleuza: Eu tenho um ponto de carros. Eu cuido de carros.

V&I: Você trabalha todos os dias?
Cleuza: De segunda a segunda. Dia de semana eu trabalho no Tatuapé. Vendo refrigerantes num farol, em frente ao Cabral [conhecido bar criado por Luciano Huck], do lado da Copel, que caiu.

V&I: Copel?
Cleuza: É uma firma de colchões que desabou. Ficou igual ao buraco do metrô [ri da própria piada.]

V&I: Você é daqui de São Paulo?
Cleuza: Não, sou de Araçatuba. Casei e vim morar aqui.

V&I: Você é casada, tem filhos?
Cleuza: Sou viúva, tenho quatro filhos.

V&I: Quantos anos você tem?
Cleuza: Tenho quarenta e sete. Sou abençoada. Dois setes no mesmo ano. Quarenta e sete, dois mil e sete.

V&I: Você veio para São Paulo com quantos anos?
Cleuza: Deixa eu ver… Pra cá eu vim com trinta. Já vim casada, com filho.

V&I: Seus filhos são grandes?
Cleuza: São. O mais novo está com vinte anos. Todo mundo está casado. Eu tenho oito netos.

V&I: Você mora sozinha?
Cleuza: Não. Moro eu, minha filha, e meus dois netos.

V&I: Você não namora? Não chegou a casar de novo?
Cleuza: Ah… Casar, não. Não quero casar, não. E pra namorar, tem que acontecer, não é? Não apareceu ainda alguém pra ficar junto pelo resto da vida. Tem que ser uma pessoa boa. Não quero uma pessoa que me faça mal.

V&I: Você está voltando para casa?
Cleuza: É. No domingo eu venho pra cá porque eu tenho um ponto em que cuido de carro, entendeu?

V&I: E você está lá no mercadão desde quando?
Cleuza: Desde o dia dos pais do ano passado. Foi um presente de Deus, não é?

V&I: Você falou em Deus. No que você acredita?
Cleuza: Em Deus. Eu sou evangélica. Eu vou na Igreja Pentecostal Estrela da Manhã.

V&I: E você vai sempre a essa igreja?
Cleuza: Vou sempre que dá. Tem semana em que eu vou direto, tem semana que não. Deus é a única pessoa na minha vida. Um Deus poderoso, que pode fazer tudo, que pode me transformar, que pode mudar minha vida.

V&I: A impressão que me dá é que você é muito feliz.
Cleuza: Eu sou feliz, sabe porque? Eu tenho o dia-a-dia, tenho quatro filhos maravilhosos, oito netos. Minha nora agora está grávida de dois meses, fiquei sabendo ontem. Vai vir mais um de meu filho. É tudo benção de Deus. É melhor um bebê que uma doença. Uma doença você só vai gastar, gastar, gastar. Se você não tiver fé, a pessoa acaba morrendo… Com um filho, não. Você vai trabalhar pra cuidar deles.

V&I: Você sempre foi feliz?
Cleuza: Sempre. Com nove anos acho que foi a época em que eu era mais feliz. Eu pescava de peneira. Eu falava que quando me casasse, queria ter quatro filhos, e tive quatro filhos. Tudo filho de um homem só, não queria ter filhos de dois homens. E eu queria sentar na mesa e comer com minha família e jantar com meu marido.

V&I: Seu marido morreu de que?
Cleuza: De cirrose. Ele bebia.

V&I: E daqui pra frente, como você imagina o futuro?
Cleuza: Eu quero ser muito feliz. Eu quero ter um marido bom, um homem que me faça feliz, assim como eu vou fazer ele feliz. Mas que cuide de mim: não quero aquele homem que ganha dez e me diga que ganha cinco porque não vai dar certo, eu vou gastar os cinco e os outros cinco também.

V&I: E o futuro do Brasil?
Cleuza: Vou falar de política. O que esse homem [Bush] veio fazer no Brasil? O Lula lutou tanto pra chegar onde ele chegou, foi guerreiro, apanhou. Agora, ele quer dar o Brasil para esse homem tomar conta. Você acha que vai acontecer o quê? Olha, eu moro na Cidade Tiradentes [bairro a 25 quilômetros em linha reta do centro de São Paulo] . Lá eu me sinto bem. Sabe por quê? Por que lá é tudo povo. E o Lula, o que ele está querendo fazer? Vender uma coisa que nós temos aqui para os Estados Unidos. Você acha que um dia, quando o homem voltar aqui, ele vai comprar mais o quê? Quando for daqui a três anos, o que vai acontecer? Ele [Bush] já tomou conta do Brasil. E aí? Esses milhões de gente que dormem na rua, você acha que vai dormir? Me responde.

V&I: Você está me perguntando? É para responder?
Cleuza: É.

V&I: Esse monte de gente que dorme na rua já é um problema de hoje. Eu venho sempre para o centro e vejo, está cada vez pior.
Cleuza: Então, o que o Lula tem que fazer? Ele lutou tanto, foi um presente de Deus. Isso aí vai sair na internet, ele vai ler. Ele lutou tantos anos, até apanhou pra conseguir o que queria. Agora, ele está jogando fora o nosso país. Ele está dando de mão beijada. Eu acho errado.

V&I: Por que você acha que ele está dando?
Cleuza: Porque ele está vendendo. Ele não está vendendo esse negócio do álcool? Eu não entendo esse negócio aí.Ele vai vender o quê? A fórmula de fazer o álcool? É isso o que eu quero entender.

V&I: A idéia é vender o próprio álcool. Nós fazemos álcool com cana. Eles fazem o álcool com milho, porque eles não tem cana. Só que o álcool feito com milho fica muito caro. Você sabe que a cana vai bem aqui.
Cleuza: É. Muita cana.

V&I: Você acha que o Brasil vai dar certo?
Cleuza: Vai.

V&I: Vai demorar pra dar certo?
Cleuza: Não. Na minha mente, eu acho que algo de bom vai acontecer com esse Brasil. Sabe por quê? Nós temos tudo. Nosso país não é um país miserável. Nós temos tudo. Um dia algo vai ter que mudar.

V&I: Eu também acho.
Cleuza: Então, porque sair daqui pra buscar lá? Nós temos tudo aqui. E o presidente está dando tudo… Depois da cana, sei lá o que ele vai dar pro cara.

V&I: Cleuza, quer dar algum recado pra quem ler essa entrevista na internet?
Cleuza: Vou mandar um abraço pra Amália, eu sei que ela vai me ver. Ela é minha vizinha. Ela é minha amiguinha do coração.

V&I: Quer falar alguma coisa para quem estiver lendo, mesmo sem te conhecer?
Cleuza: Quero que gostem da minha entrevista, e sucesso. Sucesso pra mim e pra quem ler.

Fiz mais algumas cliques de Cleuza e anotei seu endereço, pois fiquei de enviar as fotos pelo correio. Ela saiu contente, não sem antes confessar que sempre que via equipes de televisão na rua, torcia para ser entrevistada pelos repórteres. De todo modo, a Globo não manda fotos dos entrevistados pelo correio, não é mesmo?

CAMILA, VICTOR e ANDRÉ

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Eu estava em Penedo, maior cidade do Baixo São Francisco, recostado em um muro que se debruça sobre o Velho Chico, a bonita tonalidade de suas águas realçada pelo sol do fim da tarde e até por isso puxada para um marrom brilhante. Eu olhava para uns postes fincados lá no meio do rio, junto a algo que parecia ser um casebre engolido pela água, e me perguntava que raio poderia ser aquilo, já que o São Francisco aparentemente não estava muito cheio. Então chegaram as crianças - dois meninos e uma menina, varas de pesca nas mãos - e me explicaram que quando o nível da água descia, aparecia uma praia quase no meio do rio, sendo o casebre uma barraca de lanches. E ficamos a prosear, o plácido e manso rio como testemunha.

Quais os seus nomes?
Camila… Victor… André.

V&I: O meu nome é Ricardo. Quantos anos vocês têm?
Camila: Nove anos.
Victor: Onze anos.
André: Onze anos.

V&I: Vocês são amigos, irmãos, primos?
Victor: Eu e ela somos irmãos. Ele é nosso primo.

V&I: Vocês todos são de Penedo?
André: Eu sou do Rio.
Camila: Nós [Camila e Victor] somos. E você, da onde é?

V&I: Eu sou de São Paulo.
Camila: São Paulo é melhor que aqui, não é?

V&I: Em algumas coisas é melhor, em outras é pior.
Camila: Como é São Paulo?

V&I: São Paulo? É muito grande. Mas me digam uma coisa: o que vocês estão fazendo aqui?
André: Estamos pescando. [Mostrou a linha de pesca enrolada na mão.]

V&I: E aqui dá muito peixe?
André: Dá, sim. Dá piaba, quer ver? [Afastou-se e voltou com as iscas: um peixinho de uns quatro ou cinco centímetros, algumas minhocas ainda vivas.]Victor: Você é fotógrafo?

V&I: Sou, sim. E vocês, estudam?
Camila: Estudamos.

V&I: E o que vocês querem ser?
Camila: Quero ser modelo. [E fez uma pose forçada para mim.]
Victor: Eu quero ser jogador de futebol.
André: Eu também quero ser jogador… Ou fotógrafo.

V&I: Vocês não são nada bobos… Modelo e jogadores de futebol…
André: Você vai fotografar o pôr-do-sol?

V&I: Eu quero, sim, mas acho que ainda falta uma hora para o sol baixar. Onde o pôr-do-sol é mais bonito?
André: Aqui mesmo. Daqui é mais bonito.
Camila: O que é isso? [Apontou para o gravador que estava em minha mão.]

V&I: É um gravador. Nunca tinha visto?
Camila: Eu não.

V&I: Vou mostrar. Fale alguma coisa.
Camila: Ricardo, boa sorte!
[Voltei a fita e repeti a voz de Camila: “Ricardo, boa sorte!” A menina pareceu encantada em escutar a própria voz.]

V&I: Posso fotografar vocês?
[Camila foi a primeira a aceitar. Fiz várias fotos deles, e deixei meu cartão com telefone e e-mail. Um primo com acesso à internet me pediria as fotos quando eu já estivesse em São Paulo.]

V&I: Gostaram das fotos?
Camila, Victor e André: Gostamos.

V&I: Eu vou indo. Quero tirar mais fotos da cidade antes de voltar aqui para o pôr-do-sol.
Camila: Você vai de carro para São Paulo?

V&I: Não, vou de carro só até Salvador. Depois eu pego um avião para voltar para casa.
Camila: Sabe que eu só andei de carro uma vez?

V&I: Só uma vez?
Camila: Foi com um tio. É que ele mora em outra cidade.

Percebi que Camila queria, junto com o irmão e o primo, andar de carro comigo pela cidade. Só não os levei para um passeio com medo da pecha de seqüestrador ou pedófilo – tanto mais em uma pequena cidade onde eu não conhecia ninguém, estando minha casa mais de dois mil quilômetros para trás. Infelizmente, o segundo passeio de carro na curta existência de Camila era algo fora do meu alcance. E o tal primo ainda não me procurou em busca das fotos do trio…

GIL

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Eu estava em Aracaju e decidi passar o dia em Penedo, cidade alagoana considerada a capital do baixo São Francisco. Sabia que poderia conseguir belas fotos do casario colonial e do pôr-do-sol sobre as águas do velho Chico. Além das fotos previstas, acabei também clicando a Gil, com quem conversei.

Qual é o seu nome?
Gil.

V&I: Quantos anos você tem, Gil?
Gil: Vinte e seis.

V&I: Casada, filhos?
Gil: Não.

V&I: Você é daqui de Penedo?
Gil: Não, sou de uma outra cidade. Eu estou na casa da minha tia aqui em Penedo.

V&I: Que cidade?
Gil: Ah, você não conhece.

V&I: Mas qual a cidade?
Gil: Igreja Nova. [Igreja Nova, 20 mil almas, 30 quilômetros a frente de Penedo, no caminho para a BR-101.]

V&I: É longe?
Gil: Não. Fica a uma hora daqui. E você, de onde é?

V&I: Eu sou de São Paulo. Dá para notar pelo sotaque, não é?
Gil: É.

V&I: Conhece São Paulo?
Gil: Eu já estive lá por uns tempos.

V&I: Gostou?
Gil: Não…

V&I: E há quanto tempo você está em Penedo?
Gil: Uns três meses.

V&I: O que você faz da vida, Gil?
Gil: Não faço nada.

V&I: Que inveja! Eu faço coisas demais. Quer trocar?
[Gil sorriu, timidamente.]

V&I: Mas por que você não faz nada?
Gil: É que eu tenho pouco estudo. Fica difícil arrumar alguma coisa.

V&I: Fica difícil, sim. E quando vai voltar para casa?

Gil: Não sei, não.

V&I: Posso fotografar você? Se você quiser, depois eu mando a foto.

Gil hesitou um pouco, mas aceitou que eu a clicasse. Largou a bolsa no chão da rua e esperou que eu fizesse as fotos. Pedi que mudasse de posição para que a luz do sol incidisse em um ângulo mais favorável. Fiz assim duas fotos; em ambas, a fisionomia de Gil estava muito sisuda.

V&I: Por que você sai tão séria nas fotos?
Gil: É que eu não gosto de sair rindo.

Convenci Gil a posar sorrindo. Depois mostrei-lhe as fotos; encabulada, concordou comigo e também preferiu a foto em que se mostrava sorrindo. Muito em breve, é essa a foto que Gil receberá pelo correio.

Página 2 de 4«1234»
    Conheça também:

    Visite os outros blogs:

    O Pensador Selvagem anuncia:

    Propaganda: