FRANCISCO

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Eu o vejo quase todos os finais de semana, esmolando perto do prédio da prefeitura, recostado à grade do Viaduto do Chá. Roupas surradas, chega com o auxílio de muletas e ali fica, a velha bacia branca estendida para os passantes. No mesmo dia em que falei com José Molina e Albino (divulgadores da Cultura Racional, próximos entrevistados a serem publicados) tive minha primeira conversa com Francisco. Aproveitei a ocasião e fotografei-o.Uma semana depois, reencontrei-o no lugar de sempre e entreguei uma cópia em cores de um de seus retratos. Francisco agradeceu e mostrou-se feliz ao ver o próprio rosto transposto em papel.Conversamos bastante, e mais uma vez ele se mostrou mais à vontade no papel de entrevistador do que no de entrevistado.

V&I: Olá, Francisco. Tudo bom?
Francisco: Eu tou de bengala.

V&I: Por que você usa bengala?
Francisco: Eu tou com deficiência. Chama-se… [Afasta-se do gravador e aborda um homem, que o ignora.] Irmão, dá uma entrevista? [Volta ao gravador.] Eu tou com deficiência.

V&I: É artrose o que você tem?
Francisco: Artrose.

V&I: É no joelho?
Francisco: É no joelho.

V&I: É porque você andava muito de bicicleta, não é?
Francisco: De bicicleta.

V&I: E o que você fazia de bicicleta?
Francisco: Eu trabalhei… [esquece o gravador, aborda alguém que passa, volta a falar] …na Associação Comercial de São Paulo.

V&I: E o que você fazia lá?
[Francisco se desloca na direção de outro homem e pede uma entrevista. Mais uma vez é ignorado.]
Francisco: Ele não quer falar…

V&I: Você quer continuar?
Francisco: Vamos. Eu trabalhei trinta e cinco anos na rua Boavista. [Aborda outros transeuntes, sempre sem sucesso. “Ô, irmão, me dá uma entrevista? Ô, irmã, me dá uma entrevista?”] Eu trabalhei trinta e cinco anos…

V&I: O q você fazia lá? O que você entregava de bicicleta? Jornal?
Francisco: É. O Diário do Comércio. [Uma mulher dá uma moeda.] Olha só. Já ganhei cinqüenta centavos!

V&I: Onde você nasceu, Francisco?
Francisco: Eu sou paulista, rapaz!

V&I: Você tinha dito que é alagoano. Onde você nasceu, Francisco?
[Francisco aborda as pessoas, sempre pedindo uma entrevista. Parou junto a um grupo, apontou para mim e disse que eu era da Globo.]

V&I: Ei, Francisco. Você que é o entrevistado! É você quem tem que dar a entrevista pra mim.
Francisco: É… Eu trabalhei trinta e cinco anos.

V&I: Você é de Alagoas, não é?
Francisco: Alagoano.

V&I: De que lugar?
Francisco: São Miguel dos Campos.

V&I: Quando você veio pra São Paulo?
Francisco: Dois mil e sete.

V&I: Não, não… Em que ano que você veio pra cá? Há quantos anos você está em São Paulo?
Francisco: Trinta e cinco anos. Mas você chegou com minha foto!

V&I: É claro. Eu falei que vinha com sua foto. Você gostou?
Francisco: Menino…

V&I: Você gostou, não é? Ficou bonito.
Francisco: Ave Maria! [Rindo muito. Novamente foi atrás das pessoas que passavam.]

V&I: É você quem tem que dar a entrevista.
Francisco: Eu, não é?

V&I: É. Francisco, você casou?
Francisco: Eu fui casado, sou viúvo.

V&I: Quantos filhos você tem?
Francisco: Isso é um gato? [Aponta para uma moça, que passa com um cachorrinho nos braços.]

V&I: Acho que era um cachorro.
[Francisco ri. Continua a abordar quem passa..]

V&I: Ah! Francisco, você não quer dar entrevista.
Francisco: Eu quero.

V&I: Então, fala! Quantos filhos você tem?
Francisco: O Sérgio, o Luis e a Raquel.

V&I: Estão todos em São Paulo?
Francisco: Todos paulistas.

V&I: Eles casaram? Você tem netos?
Francisco: Casaram… Tenho netos… [Aproxima-se das pessoas e propõe entrevistas. Ninguém se anima com a idéia.] Mas ninguém gosta!

V&I: Ninguém gosta porque você é muito rápido. Tem que chegar devagarzinho, tem que conversar…
Francisco: Ô, Osvaldo…

V&I: Eu não sou Osvaldo, sou Ricardo. Você tem quantos netos?

E mais uma vez Francisco me ignorou. Desisti da entrevista e desliguei o gravador. Voltei a fotografar quem passava, aproveitando a ótima luz daquela tarde. Longe do gravador, acabei ouvindo mais de Francisco: que era viúvo há três anos, que a esposa morreu de diabetes, que recebia uma aposentadoria de trezentos reais. Soube também que todos os dias saía de sua casinha no Jardim Camargo Velho e pegava um ônibus para ir esmolar ali no Centro – vinte e sete quilômetros em linha reta.

Sem que eu perguntasse, sugeriu que eu fizesse um livro de fotos com o nome “Vida Cotidiana”. Foi abordado por dois pregadores, igrejas Pentecostal e Deus é Amor, respectivamente.
Recostado à grade do Viaduto do Chá, Francisco continuou a pedir entrevistas em suas abordagens aos passantes. Depois, com a mesma falta de sucesso, passou a pedir sorrisos – “Ei, me dá um sorriso?” Eu não estava tão longe quando Francisco finalmente arrancou o sorriso de um gari, ao exclamar, alto e bom som: “Eu tou de pinto duro!” O gari: “Êpa!” E Francisco emendou: “É assim que tem que ficar.”

Francisco ainda voltaria a falar sobre sexo. Uma mulher de uns quarenta anos com ele dividiu um milho verde. Francisco agradeceu o milho e logo avisou a ela que nada esperasse dele - “estou há nove anos sem sexo.” Ela reclamou sem convicção de que as pessoas só pensam em sexo, que as pessoas confundem gentileza com sacanagem. Posou para uma foto que tirei, ela ao lado de Francisco. Apenas soube a profissão dela quando ao se despedir recitou o endereço da boate onde trabalhava: “pode aparecer”, escutei dela. Não apareci na tal boate. Devo estar perdendo uma ótima entrevista…

VALQUÍRIA

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com


Depois de um dia estafante de trabalho, saí com a câmera fotográfica rumo ao centro de São Paulo. Estava equipado: lentes, cabo disparador, tripé. Eu fazia algumas fotos no Pátio do Colégio, a objetiva apontando para o prédio do Banespa, quando uma pequena e bonita menina veio olhar o que eu estava fazendo.

Qual é o seu nome?
Valquíria.

V&I: Quantos anos você tem?
Valquíria: Oito anos.

V&I: Oito anos? Mas não parece!
Valquíria: Todo mundo pensa que eu tenho seis. Mas eu já estou até estudando de tarde.

V&I: É que você é pequenininha. Você mora por aqui?
Valquíria: Eu moro na rua… [Ela ia continuar, mas de repente ficou muda.]

V&I: Entendi. Sua mãe falou para você não dizer onde mora para estranhos. Ela está certa. [Valquíria olha para mim e concorda.]

V&I: O que você quer ser quando crescer?
Valquíria: Quero ser que nem você [aponta para minha câmera]. Posso ver as fotos?

[Mostrei então as fotos que fiz do Pátio do Colégio e do prédio do Banespa iluminados com decoração de Natal.]

Valquíria: Tira uma foto minha?
V&I: Tiro, sim. Deixa só eu trocar a lente.

Valquíria: O que é lente?
V&I: É esse vidro aqui. São os olhos da máquina fotográfica.

[Depois de trocar a lente, comecei a fotografar a menina.]


V&I: O que você gosta de fazer?
Valquíria: Gosto de jogar bola. Tira a minha foto jogando bola?

V&I: Eu tiro, sim. Diz uma coisa: só gosta de brincar de jogar bola?
Valquíria: Não. Gosto de Barbie também.

Fiz algumas fotos de Valquíria; logo ela chamou seus amigos para mais fotos. Fiquei cercado por crianças, todas curiosas em ver as próprias imagens no visor da câmera. Muito de repente, foram todas embora com muita pressa. Talvez tenham se dado conta do horário, pois já passava das dez da noite ali no Pátio do Colégio. Hora das crianças estarem em casa… Talvez de olho em alguma novela da Globo!

GERALDA

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Voltava sem pressa para São Paulo pela Via Dutra quando avistei a monumental Basílica Nova, na cidade de Aparecida. Resolvi visitá-la e tirar algumas fotos. Fiz alguns cliques da missa que acontecia no interior da gigantesca construção; já estava de saída quando uma senhora idosa, caprichosamente vestida de branco, deixou o culto e perguntou se eu poderia fotografá-la. “É pra já”, disse eu. “A senhora daria uma entrevista para mim?” Ela aceitou no ato. E foi assim que inesperadamente consegui a entrevista que segue.

RM: Qual o nome da senhora?
Geralda.

RM: De onde a senhora é?
Geralda: Eu venho de Maringá.

RM: Quantos quilômetros daqui?
Geralda: Eu não sei, não.

RM: Quando a senhora saiu de casa, e quando a senhora chegou aqui?
Geralda: Saí de lá às seis (da manhã). O ônibus teve um problema, teve que parar… Cheguei aqui há uma hora (ou seja, às seis e meia da tarde).

RM: E quando vocês vão embora?
Geralda: Na volta a gente vai passar por São Paulo, pra ver a missa das cinco do padre Marcelo.

RM: Cinco horas da manhã?
Geralda: Cinco horas da tarde. Depois da missa do padre Marcelo, a gente sai de São Paulo e vai embora pra casa.

RM: Estou vendo a senhora com essa roupa branca, bonita, trabalhada. Está pagando uma promessa?
Geralda: É.

RM: Eu posso saber o motivo dessa promessa?
Geralda: É que eu fiquei quarenta horas desacordada.

RM: Algum acidente?
Geralda: Não, doença.

RM: Quando foi isso?
Geralda: Há mais de cinquenta anos. Os outros prometeram por mim, fizeram a promessa.

RM: Pediram à Nossa Senhora Aparecida.
Geralda: Isso. E hoje eu vim pagar a promessa.

RM: Quantos anos a senhora tem?
Geralda: Eu tenho oitenta anos, mas na certidão eu tenho cinqüenta e três.

RM: Tem marido, filhos?
Geralda: Só tenho duas filhas, duas netas e dois bisnetos.

RM: Vamos tirar as fotos?
Vamos.

Eu sabia que Geralda não queria perder a missa; por isso, fiz as fotos com rapidez, em uma das entradas da Basílica Nova. Depois peguei o endereço dela no Paraná e fiquei de enviar as fotos nesta semana. Insistiu em pagar pelas cópias, mas recusei. Geralda se despediu de mim com um abraço e voltou, feliz que só, para o interior da igreja.

DANIEL

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Eu estava com minha Canon fotografando transeuntes no Viaduto do Chá quando ele - um homem sério, sisudo, fala mansa, pasta de papéis nas mãos - timidamente se aproximou, dizendo que ia para Campinas atrás de um emprego. Convidei-o para uma entrevista e ele logo topou.

RM: Qual é o seu nome?
Meu nome é Daniel.

RM: Daniel, o que você está fazendo aqui no Viaduto do Chá no domingo de tarde?
Daniel: Eu estou aqui desde ontem atrás das minhas documentações. Documentação necessária para um emprego anunciado. Já providenciei, graças a Deus.

RM: É documentação para trabalhar?
Daniel: Pra trabalho, exatamente.

RM: O que você faz?
Daniel: Eu sou armador de ferragens.

RM: O que faz um armador de ferragens?
Daniel: O armador de ferragens lida com vários tipos de trabalho, de serviço, como pontilhão, ponte…

RM: Isso na construção civil.
Daniel: Construção civil. Prédio, residência, casa, Cohab, essas coisas. Diversos tipos de serviço.

RM: Você mora aqui em São Paulo?
Daniel: Moro. Estou morando agora atualmente aqui na Baixada do Glicério.

RM: Você nasceu aqui?
Daniel: Nasci em Paranavaí, mas criado em São Paulo.

RM: Onde fica Paranavaí?
Paranavaí é no Paraná, depois de Londrina, Maringá. Norte do Paraná.

RM: Você está em São Paulo há quantos anos?
Daniel: Estou em São Paulo há 17 anos.

RM: Você gosta daqui?
Daniel: Olha, gostar, a gente tem que dizer que não. Por causa do transtorno, do dia-a-dia, essa cidade, a correria. Mas em termos de serviço, a coisa aqui em São Paulo é melhor do que em certos lugares aí fora. Tem bastante trabalho. Estou passando necessidade, dificuldade, mas graças a Deus estou tentando normalizar, recolocar as coisas no lugar.

RM: Você é casado?
Daniel: Sou casado.

RM: Tem filhos?
Daniel: Tenho um filho mas não está comigo. Está no Paraná.

RM: Quantos anos de casado?
Daniel: Vai fazer 17 anos.

RM: Você está com quantos anos?
Daniel: Eu estou com 42.

RM: Você aparenta menos.
Daniel: Sim, aparento, muitos falam. Mas creio que é só a fisionomia, mesmo.

RM: O que você espera do futuro, de 2007?
Daniel: Eu pretendo agora trabalhar, recomeçar a vida, recolocar as coisas no lugar. Recomeçar de novo, se tudo correr bem. E serviço, não é? Trabalho.

RM: A sua mulher está aqui ou está no Paraná?
Daniel: Está no Paraná.

RM: Você vai trazê-la?
Daniel: Pretendo, futuramente, mais para frente.

RM: Perfeito, então. Obrigado pela entrevista e tudo de bom.
Daniel: Ok.

Apertei a mão de Daniel e ele se foi, passo miúdo e rápido, carregando sua pastinha de plástico transparente cheia de documentos. Oxalá ele consiga o emprego e traga a mulher que ficou no Paraná.

"ZÉ"

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Dez e meia da noite de quarta. Eu mal parei o carro no Pátio do Colégio e já fui recebido pelo cara. Com forte hálito de álcool, foi me estendendo a mão (suja e grudenta) e começou a puxar conversa: “Chico Buarque vai morrer.” Como eu estava sem o gravador, puxei de memória a maior parte da prosa.

RM: Por que o Chico Buarque vai morrer?
Zé: O Chico Buarque fuma e bebe, vai morrer.
RM: Mas só porque fuma e bebe vai morrer?
Zé: Ele tem aquela mulher gostosa, a Marieta Severo.
RM: A mulherada toda dá em cima do Chico Buarque.
Zé: Você é amigo do Chico Buarque?
RM: Não, mas eu gosto dele.
Zé: Chico Buarque vai morrer. Ele fuma e bebe.
(…)
RM: Qual é o seu nome?
Zé: Por que você quer saber meu nome?
RM: Porque eu gosto de saber o nome das pessoas com quem eu estou falando. Meu nome é Ricardo, e o seu?
Zé: Por que você quer saber meu nome?
RM: Se você não quer falar seu nome, minta. Inventa um nome.
Zé: Eu nunca minto.
RM: Então, vou fingir que você é o Zé.
Zé: Pra que você quer saber meu nome?
(…)
RM: De onde você é?
Zé: Você tem que adivinhar de onde eu sou.
RM: Você tem sotaque meio de carioca.
Zé: Não sou do Rio. Você é brasileiro?
RM: Sou.
Zé: Então, adivinha de que estado eu sou.
RM: Sou bom de geografia. Vou começar do sul: Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minhas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará…
Zé: Nenhum deles. Você não sabe de onde eu sou.
RM: Mas eu não falei todos os estados…
Zé: Você não sabe todos os estados. São 27 estados.
RM: Então faz assim: se eu falar todos os 27 estados, você deixa eu tirar uma foto sua?
Zé: Se fosse falar eu deixo.
(E comecei a falar todos, contando nos dedos, de 1 a 27. 26 estados mais o Distrito Federal.)
RM: Pronto. De onde você é?
Zé: De Tocantins.
RM: Mas quando você nasceu, ainda não existia Tocantins. Era Goiás.
Zé: É.
RM: Palmas nem existia. De onde você é? De perto do rio Araguaia?
Zé: Rapaz, eu quase me afoguei no Araguaia.
RM: Você está há quanto tempo em São Paulo?
Zé: Há dez anos.
RM: O que você faz?
Zé: Eu não faço nada. Eu moro na rua.
(…)
RM: Agora posso tirar a foto?
Zé: Você me dá cinqüenta centavos pra completar meu almoço?
RM: Olha. Dois reais.
Zé: É pro almoço, não é pra janta, não. Eu não almocei hoje ainda.
RM: Posso agora tirar a foto?
Zé: Pode ser junto do sino?
(…)
Zé: Qual a capital de Roma?
RM: Roma não tem capital. Roma que é capital da Itália.
Zé: Não… Você não sabe a capital de Roma.
(…)
RM: Qual a sua religião?
Zé: Eu sou católico apostólico romano.
(…)
Zé: O Papa não mente. O Papa é santo. Você é contra o Papa?
RM: O Papa não é santo.
Zé: Como que o Papa não é santo? O Papa não mente!
(…)
Zé: O que você vai fazer com minha foto? Vai pôr no jornal?
RM: Claro que não. Eu nem sei seu nome.
Zé: Eu te mato, hein?
(…)
Zé: E se você estivesse na Faixa de Gaza?
RM: Eu não vou para a Faixa de Gaza.
Zé: Levar um tiro na Faixa de Gaza. Tum!…

O homem vez por outra puxava a minha mão para um aperto. De modo algum deu o nome, e por isso batizei esse John Doe tupiniquim como “Zé”, “Zé Ninguém”. E Zé começava a repetir seus assuntos, quase fetiches: Chico Buarque, o Papa, a faixa de Gaza, religião. Quando foi embora, Zé falava novamente sobre o Chico. Um policial, que acompanhava a conversa a alguns metros de distância, me indagou quando eu saía do Pátio: “Ele é seu amigo?”

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