JOSÉ

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Tarde de domingo. Parei em frente ao Parque da Luz para fotografar a torre da estação ferroviária, belíssimo prédio que por obra de cuidadosa restauração mostra-se novo em folha. Um senhor que vendia sorvetes em um carrinho da Kibon aproximou-se e mostrou-se interessado em meus cliques. Conversamos um pouco, saboreei um Cornetto de doce-de-leite e convidei-o para entrevista e fotos.

Qual é o seu nome?
José.

O senhor é daqui de São Paulo?
J: Sou daqui de São Paulo.

O senhor estava me falando que morou em São Vicente.
J: Morei em São Vicente.

Fora São Paulo e São Vicente, morou em algum outro lugar?
J: Não, aí é só aqui mesmo.

Por quanto tempo o senhor morou lá?
J: Cinco anos.

O senhor gosta mais de lá ou daqui?
J: Olha, lá é muito legal, mas o meu lugar mesmo é aqui.

Em que bairro o senhor mora?
J: Penha.

O senhor vem da Penha até aqui com o carrinho?
J: Não, o carrinho vem do Brás.

Então o senhor nasceu na Penha e mora na Penha até hoje.
J: Não, eu nasci em Cafelândia. Eu sou cafelandense.

O senhor veio para São Paulo com quantos anos?
J: Vim pra São Paulo já velho, eu morava no Paraná.

Cafelândia é no Paraná?
J: Não, Cafelândia é no estado de São Paulo.

O que o senhor fazia em Cafelândia?
J: Nem conheço Cafelândia. Eu fui criado lá pro Mato Grosso, lá pra Dourados.

O senhor conhece o Brasil todo, então!
J: É. Mato Grosso eu conheço. Eu conheço o Paraná. Eu estive em Maringá, trabalhei em Maringá, me casei em Maringá.

Ma o senhor gosta mesmo é de São Paulo.
J: É.

O senhor tem filhos?
J: Tenho.

Quantos filhos?
J: Sou pai de cinco filhos. Tem três vivos, todos criados.

Qual a idade deles? Todos grandes?
J: Ah… Tem um de 38 anos, uma menina tem 30 e a outra tem 25. Tenho dois, não… Três netos. Um neto com 17 anos, uma neta com 12 e a outra vai fazer 9.

Quantos anos o senhor tem?
J: Eu? 75.

Não parece. O senhor está bem.
J: Não parece, não é? Muita gente fala isso.

Pela sua experiência, me diga: qual a melhor coisa da vida?
J: Olha… Que a gente tenha saúde em primeiro lugar. Pra isso, tem que gostar de comer, na hora certa a gente dormir, e também levantar cedo pra trabalhar.

Por sinal, a tarde estava no fim. O senhor José fechou o guarda-sol colorido, despediu-se e saiu empurrando o carrinho de sorvetes. Três quartos de século de existência, mas que pique! Voltarei lá em outro domingo, para mostrar as fotos que fiz e também para tomar mais sorvete, sempre acompanhado de saborosa prosa.

TATIANA, PALOMA, JULIANA e ANA CARLA

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

O sinal vermelho, eu parei. Vidro aberto, logo me ofereceram o folheto para um lançamento imobiliário no Bom Retiro. “Posso tirar uma foto sua?” A menina disse que sim, e logo chamou a colega de trabalho para que posassem juntas. Luz verde, eu agradeci e saí. Acabei dando a volta no quarteirão e parando no semáforo novamente. “Você me dá uma entrevista?” Ela explicou que o supervisor estava por perto, mas que o expediente acabaria em dez minutos. Resolvi estacionar o carro e esperar. Acabei falando não apenas com essa garota, mas também com outras três que cobriam o cruzamento, alinhadas aos pontos cardeais.

Quais os seus nomes?
Tatiana… Paloma… Juliana… Ana Carla.

Quantos anos vocês tem?
Tatiana: Vinte e um.
Paloma: Dezoito.
Juliana: Dezoito.
Ana Carla: Dezoito.

Vocês moram por aqui ou moram longe?
T: Longe, Itaim Paulista.

Todas no Itaim Paulista?
T, P, J e AC: É.

A cada fim de semana vocês trabalham em um lugar diferente?
AC: Sempre por aqui. Sempre no Bom Retiro.

Há quanto tempo vocês entregam panfletos?
AC: Eu, há dois anos e meio.
J, P e T: Há três meses.

Só lançamentos imobiliários?
J: Só.

Vocês estudam?
T: Não.
P: Tou terminando o segundo este ano.
J: Também terminando o segundo.
AC: Tou terminando o terceiro.

Esse trabalho é divertido ou é chato?
J: É cansativo, mas é divertido.
T, P, J e AC: É.


Eu reparei que enquanto vocês trabalham, fazem a maior festa, mostram a maior alegria.
AC: O jeito é trabalhar alegre.

Muita gente não pega o panfleto, não é?
P: Tem muita gente que não pega, mas tem muita gente que é simpática.

Qual o horário de trabalho?
AC: Das dez às seis, agora, que é horário de verão.

Trabalham só fim de semana?
AC: É, só no sábado e no domingo.

Carteira assinada?
J: Ah! Jamais.

E quanto vocês ganham?
AC: Vinte reais no fim de semana, doze reais no meio da semana.

Dão ajuda para o almoço?
T, P, J e AC: Não!
T: Vinte reais livres. Eles te trazem, te levam, e só.

Se querem ir no banheiro, como vocês fazem?
P: A gente vai. Quando tem próximo, a gente vai.

Próximo daqui, onde tem?
T: Tem no estacionamento, no bar, tem no restaurante.

Então tem lugar em que não há um banheiro próximo?
T: Tem lugar que é longe.

E aí? Segura a vontade o dia inteiro?
P: Não vai, só que é que é longe.

E água? Dão água para vocês?
P: Eles não dão água.
P: A água que a gente tem, a gente traz de casa.

Se vocês não trouxerem água de casa, ficam sem água?
AC: Pode ser que alguém dê em um bar. Às vezes os marreteiros…
J: Tem muito lugar que o pessoal não dá.
P: Aqui mesmo. Tem um bar que para gente poder usar o banheiro, a mulher cobra um real.

Vocês ficam trabalhando no meio dos carros. Já tomaram algum susto?
AC: Já. Eu fui atropelada. Moto. Machuquei o pé, engessei.

O que vocês esperam do futuro?
T: Trabalhar e ganhar bem.
AC: Estudar.
J: Eu quero ser gerente.
P: Eu não quero ser gerente. Eu quero ser dona. Eu quero que trabalhem pra mim, não eu trabalhar pra ninguém.

Fiz algumas fotos das moças, que até coreografia fizeram. O ensaio fotográfico acabou de repente: o supervisor chegou com a condução, uma velha Kombi que as deixaria no Itaim Paulista, bairro a vinte e cinco quilômetros dali. Eu me despedi das simpáticas garotas com a certeza de que não mais deixarei de abrir o vidro do carro nos semáforos para pegar os tais folhetos das imobiliárias.

LUIZ

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

A rua José Paulino fica no Bom Retiro e concentra boa parte dos atacados de roupas de São Paulo. Lojas já fechadas, o movimento agora não é de compradores, mas sim de funcionários das lojas voltando para casa após o expediente. Eu fotografava duas transeuntes que faziam pose para mim quando o cara surgiu: camiseta da Cavalera, bermudinha, colar de contas, cigarro entre os dedos, exigiu que também fosse fotografado. Não apenas o cliquei, mas também conversamos.

Qual o seu nome?
Luiz.
Luiz, o que você está fazendo na José Paulino no fim da tarde de sábado?
Estou chegando agora do serviço e estou à procura de uma pessoa muito interessante, que interesse a mim também.
Como é essa pessoa que você está procurando?
Ah, uma morena, um metro sessenta e oito, os olhos castanhos igual os meus, de preferência.
Você sabe até a altura certinha. Sabe exatamente o que quer!
Com certeza, véio.
Morena de um e sessenta e oito. E o que mais? Magra, gorda?
Não, não, não. Eu não tenho preconceito, não.
Pode ser gordinha?
Pode ser, cara.
Bom que seja liberada?
Com certeza.
O que mais você espera? O que você gosta de fazer?
Tudo, mano. Completo. Eu sou um cara louco.
O que é ser louco?
Louco é o seguinte: entre quatro paredes, fazer tudo aquilo que a mulher gosta e eu também, tá entendendo? E aí saiu de quatro paredes, já era: ninguém viu nada, ninguém sabe de nada.
Muito discretamente.
Exatamente.
E fora sexo, o que você gosta de fazer?
Trabalhar e tomar uma cervejinha e um Contini.
Você trabalha com o quê?
Eu sou pintor, entendeu? Pintor residencial, predial e tal.
Então você rala pra caramba, mas no fim de semana fica procurando essa morena.
Com certeza, e até hoje eu não achei.
Ah, mas você acha outras por aí…
Ah, mas depende… Mas só que nunca fez o meu hobby.
Nunca achou uma que fosse exatamente o que você queria?
Não, não, não. Ainda não.
Nunca?
Nunca, nunca, nunca. Encontrei várias, mas não encontrei ainda a que eu quero mesmo.
Aquela história: enquanto a gente não acha a mulher certa, a gente se diverte com as erradas.
Ah ah! Mas é por aí mesmo, entendeu? Só que eu prefiro a pessoa certa.
E hoje? Ainda não achou uma morena pra hoje?
Até agora, até o momento, eu tou sem ninguém.
Nem loira, nem nada.
Nem loira nem morena nem escura nem nada.
E onde você vai procurar essa mulher hoje?
Ah, Não sei. Deus sabe.
Não tem idéia ainda?
Não, não tem.
Se alguma mulher vir essa entrevista e quiser falar contigo, como ela faz? Como ela te acha?
Então, é aí que está o problema, tá entendendo? Porque o meu celular me roubaram dentro do metrô. É real. Agora, como é que eu faço? Ela tem que deixar o telefone com você, se você deixar o seu comigo. Aí ela entra em contato com você.
Então a gente faz o seguinte. Posso colocar a entrevista na internet?
Com certeza. E eu dei minhas características também. Se alguém quiser…
Então eu deixo contigo o meu cartão e você me liga. Se alguém me ligar, eu encaminho pra você.
Certeza, lógico.
Posso tirar mais fotos?
Com certeza.

E fiz mais umas poucas fotos do Luiz, que saiu todo feliz na direção do Parque da Luz. Ficou de ligar para mim em dez dias, para que eu repasse os contatos de eventuais pretendentes que tenham visto essa entrevista. De preferência morenas, de um e sessenta e oito. Se forem liberadas, tanto melhor. Alguém se habilita?

INGRID

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Três da tarde de um domingo de céu lindo e sol escaldante. As ruas do centro da cidade, próximas ao porto, desertas. A moça, vestida com um surrado top laranja e minissaia, aproximou-se enquanto eu fotografava um prédio histórico e ficou observando eu regular a câmera e escolher enquadramentos. Reclamei do calor e puxei papo. Logo começamos a entrevista.

Qual o seu nome?
Ingrid.
Quantos anos você tem?
Eu tenho vinte e um.
O que você gosta de fazer?
Ah… Eu faço programa.
Mas programa é trabalho, não é?
É, lógico.
E o que você gosta de fazer, quando não está fazendo programa?
Gosto de andar, passear na praia.
Qual praia?
A da Biquinha.
Você tem filhos?
Não.
Já casou alguma vez?
Não.
Teve algum namoro firme?
Já.
Está sozinha?
Tou. O meu namorado morreu.
Morreu como?
Acidente de moto.
Ingrid, me diz uma coisa: o que você espera do futuro?
Espero sair dessa vida.
Você está há quanto tempo nessa vida?
Seis anos.
Então, quando você começou, você era menor de idade?
Era.
E quando você sair dessa vida, o que você pretende fazer?
Ah… Meu sonho era ter minha casa, meu marido.
Você mora por aqui?
Moro na saída da cidade.
Você vem a pé pra cá?
É.
Todo dia? De segunda a segunda?
É.
Fala do seu trabalho. Tem vez que é legal, tem vez que não é legal?
Nem todo dia é bom, né? Mas nem todo dia a gente se fode.
Mas tem dia que é bom, não é?
Tem dia que é.
Espero que hoje seja um dia de sorte.
Obrigada.

Tempo é dinheiro: abreviei a conversa porque notei que Ingrid se inquietava sempre que um caminhão, invariavelmente conduzido por possível cliente, passava por nós. Óbvio que eu não queria vê-la perder programas por estar de lero comigo. E programas, leitores, programas valem dinheiro, e por tabela a subsistência. É um dinheiro suado, esse - tanto mais numa infernal tarde de domingo, sol de rachar.

CELESTINO

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

O homem usava enormes óculos estilo caçador, sem lentes, e nariz de palhaço. Aproximou-se das pessoas que esperavam o ônibus em frente ao Pátio do Colégio, bem ali onde São Paulo um dia começou. Uma policial viu e achou por bem afugentá-lo para os lados da Quinze de Novembro. Afinal, não está certo importunar quem está quietinho, sentado no banco sob a cobertura metálica, esperando o busão sabe lá Deus para onde. O homem reclamou, peitou a policial, mas logo se conformou e atravessou a rua. Quando fui falar com Celestino, ele pedia a um jardineiro uma mudinha de planta para dar de presente à policial que momentos antes o enxotara. Aceitou ser entrevistado, avisando de cara que era carioca, que gostava de mulher e que votou no Lula.

Qual o seu nome?
Celestino.
Onde você nasceu, Celestino?
Rio de Janeiro.
Como você veio parar em São Paulo?
Minha mãe me trouxe pra cá com dois anos.
Então você sempre morou em São Paulo.
É, eu sou paulistano, praticamente.
E o que você faz da vida?
Rapaz… Eu faço o que a vida faz de mim.
O que você gosta de fazer, Celestino?
Eu gosto de dançar, de mulher e de beber.
Dançar o que? Samba?
Rock.
Rock? Você é roqueiro?
Opa! Eu tenho 52 anos. Eu sou um dinossauro do rock, né? Rolling Stones.
Além dos Rolling Stones, de quem mais você gosta, Celestino?
Ângela Maria.
Mas Ângela Maria não é rock. Ângela Maria é parceira do Cauby.
Eu também adoro Cauby Peixoto.
Cauby é ótimo. Eu fui ver um show dele no Bar Brahma. O cara continua em forma.
Em forma!
Celestino, você trabalha?
Não, não trabalho.
Está parado.
Eu tou. Aqui em São Paulo, a pessoa com 50 anos não consegue emprego.
É verdade.
Ainda desdentado, não consegue.
O que você fazia antes?
Era protético. Fazia dentes. Também era vendedor de sapatos na rua Augusta. Em 72, trabalhei no supermercado Eldorado. Naquela época… Agora, tou com 52 anos.
Você nunca casou?
Eu fui amigado. Tenho um filho, ele tá lá no Paraná.
Você falou do Lula. Você gostou dele?
Eu voto no Lula. Lula lá e eu aqui!
Tem eleição de novo daqui a 3 semanas.
Ainda bem que eu vou votar de novo. Eu vou votar de novo e ele vai ganhar.
Agora você vai dar essa plantinha pra PM?
Ahn.
Posso tirar uma foto sua?
Pode. Mas eu tou disfarçado… Eu sou agente da Uncle.
Ah, me conta outra coisa: porque você está com esse nariz de palhaço?
Porque eu votei no Lula…
Alguém te deu o nariz de palhaço quando você foi votar no Lula?
Não. Eu compro e vendo.
Na 25 de Março?
Na 25… Como é que você sabe?
A 25 é logo ali. Todo mundo sabe. Mas diz uma coisa. Onde você fica? Está sempre por aqui?
Às vezes. Já dormi ali naquela rua. Naquela porta ali.
O que você espera do futuro?
O futuro é o governo. Não é ladrão, não é sanguessuga, não é mensalão.
O futuro é honestidade no país.

Celestino, vou imprimir uma foto para você e espero te ver de novo.
Tá, tudo bem.
Tudo de bom!
Também!

E Celestino atravessou a rua, em direção à base móvel da Polícia Militar, plantinha nas mãos, um presente para a bela PM que policiava o Pátio.

Página 4 de 4«1234
    Conheça também:

    Visite os outros blogs:

    O Pensador Selvagem anuncia:

    Propaganda: